domingo, 27 de abril de 2008

Gaita transmontana ou Gaite de foles


A gaita-de-fole transmontana (também conhecida como gaita trasmontana e gaita mirandesa, ou simplesmente por gaita-de-fole, gaita de foles ou ainda gaita) está entre os modelos mais intrigantes de gaitas-de-fole conhecidas, no que se refere à sua afinação e trajetória.

Muitos defendem que o termo gaita mirandesa seja um tanto impreciso, visto que a cidade de Miranda do Douro é apenas uma pequena região do território tido como Trás-os-montes, por onde o instrumento está tradicionalmente disseminado, sobretudo nas comarcas de Bragança, Miranda e Mogadouro. Daí que talvez o mais correcto seja chamá-la de "gaita-de-fole transmontana" ou só "gaita-de-fole", como é sempre chamada pelos gaiteiros mais velhos. O nome "transmontana" serve apenas para distingui-la de outras gaitas ibéricas, como a galega ou asturiana, por exemplo.


Os registros mais antigos sobre o instrumento datam já do século XVIII, em sua ampla maioria escritos. A sua cultura vinha sendo passada até meados do século XX oralmente, de pai para filho, com diferenças subtis entre cada aldeia e região. É possível encontrar manifestações tradicionais entre populações rurais mais ao sul de Trás-os-montes, como em regiões dos distritos da Guarda e Castelo Branco, mas já no Algarve os populares referem-se ao gaiteiro como músico do Norte.
Essa rica porém frágil tradição correu sério risco de extinção já a partir de 1960, quando então o antropólogo português
Ernesto Veiga de Oliveira passou a fazer recolhas pelo país e a alertar para o risco da perda de tão singular manifestação cultural. Os motivos para tal queda de popularidade são os mais variados: desde os tradicionalmente ligados a qualquer gaita-de-fole -- como a concorrência com outros instrumentos feito o violão e o acordeão -- até o êxodo das populações jovens para áreas urbanas ou mesmo a emigração (especialmente Brasil e França), rompendo com as tradições pastoris de suas origens. Uma das conseqüências mais notórias da obliteração do instrumento é o limitado repertório tradicional hoje conhecido, variando pouco de região para região. Muitas músicas, transmitidas apenas oralmente, eram conhecidas ainda por uns poucos músicos já falecidos do que se considera a última geração de gaiteiros tradicionais, da qual ainda restam alguns, mas poucos.
Lentamente, ao longo das últimas duas décadas, trabalhos de resgate vêm sendo promovidos por diversos grupos por todo Portugal, a reinserir o instrumento na cultura lusitana. Grande parte do repertório remanescente e imagens de diferentes instrumentistas e suas gaitas transmontanas estão compilados nalguns acervos, como os de Veiga de Oliveira,
Sons da Terra e da Associação Gaita-de-Fole. Também, uma série de novos instrumentistas solo e grupos musicais vêm surgindo, como os Galandum Galundaina, Gaiteiros de Lisboa e Gaitafolia, os quais vêm produzindo muito material novo para a gaita transmontana. Não obstante, vem sendo promovido com regularidade o Festival Anual de Gaitas-de-Fole, a reunir inúmeros instrumentistas.



Muitos alegam que a gaita transmontana estaria entre os primeiros instrumentos musicais europeus com registro conhecido na América do Sul. Isso devido a uma passagem da carta escrita por Pero Vaz de Caminha quando a frota de Pedro Álvares Cabral aportou em solo brasílico:
"(...) Com isto se volveu
Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.
(...) E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio
Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima. "
Contudo, ainda que o referido gaiteiro seja um tocador de gaita-de-fole e não outro tipo de gaita, dificilmente se pode atestar qual modelo de gaita ele estava a tocar. A península ibérica sempre foi terreno fértil para o surgimento de diversos modelos de gaitas-de-fole, alguns dos quais não sobreviveram até os dias de hoje. Além disso, a
gaita galega, ainda que provavelmente um modelo um tanto diferente do actual, sempre foi tão popular quanto a gaita transmontana, senão mais; em especial, na região litoral do Douro, onde ela é tida como gaita minhota. Finalmente, reservam-se algumas suspeitas de historiadores quanto à legitimidade da carta de Caminha, que segundo alguns fora escrita muito tempo depois do ocorrido, com o acréscimo de diversos fatos.
Outros vestígios indiretos nos levam a crer que a gaita transmontana dificilmente experimentou uma posição de destaque no decorrer da formação da cultura brasileira. Sua afinação peculiar, eólia, não encontra muitos similares no rico repertório popular brasileiro. Contudo, é possível que o instrumento tenha alcançado não só o Brasil, mas outros territórios ultramarinos, por meio de vários gaiteiros. As sucessivas ondas migratórias de Portugal ao Brasil se deram principalmente por populações nortenhas, constituintes à época da parcela mais humilde do povo português. Contudo, enquanto outros traços de tradições das regiões lusitanas setentrionais são facilmente encontrados no cotidiano brasileiro, a gaita transmontana se perdeu ao longo da história.

A gaita transmontana compartilha diversos aspectos estruturais com gaitas de regiões vizinhas: a gaita sanabresa, a gaita zamorana e a gaita alistana. Muito se discute se realmente é válida a distinção entre elas tamanha suas semelhanças, mas há de se lembrar que um objeto não se define apenas por sua estrutura, mas sim por seu contexto, sua tradição, suas técnicas e seu repertório, a formar seu significado para determinada população.



Constituída sempre de apenas um bordão baixo com palhão (duas oitavas abaixo) e uma cantadeira cônica com palheta dupla, ao passo que sua bolsa também possui um desenho característico, a usar o couro inteiro do bode.
Esta gaita é mais comumente construída em madeira de buxo
e com anéis de corno, sendo freqüente uma rica adornação de suas peças com motivos pastoris geométricos. Ainda hoje há poucos luthiers deste modelo de gaita, sendo geralmente construído de forma artesanal pelos próprios instrumentistas em populações pastoris do nordeste de Portugal. Contudo, cada vez mais artesãos dedicados à construção de instrumentos musicais voltam-se para esta gaita, não apenas em Portugal mas noutros países também, sobretudo na Espanha (Galiza) e Brasil.
A veste da bolsa costuma trazer padrões coloridos, além de adornos pendurados nos bordões e franjas típicas na maioria das gaitas ibéricas.

Afinação e digitação
Contudo, é na sua afinação que se deposita a maior peculiaridade da gaita transmontana. Ao passo que sua nota fundamental pode ser em Si, Sib ou Lá, com a subtónica (não sensível) um tom abaixo, em modo eólico
torna a sua escala distinta, parecendo a alguns um instrumento oriental. É discutível se este modo é plenamente eólio, dado a típica dispossiçāo nāo temperada do ponteiro das gaitas conservadas, mas é no padrão eólio que resulta mais fácil encaixa-las . O seu isolamento entre as montanhas portuguesas conservou à parte das tendências musicais que o Ocidente passou a estabelecer a partir do Barroco, como a predileção pelo modo jônio e um aumento do timbre. No entanto, a terceira menor na escala base do ponteiro aparece às vezes em instrumentos concretos em Sanabria, Astúrias e Galiza. A palheta de sua cantadeira é robusta e forte, com um volume bem audível, típico de um instrumento de ar livre. A sua digitação é aberta e soa uma oitava não-cromática. O seu único bordão baixo soa na tónica duas oitavas abaixo da cantadeira.


Repertório
Ao contrário do que é possível constatar com a gaita galega e a das Highlands, por exemplo, a gaita transmontana está a ser recuperada há pouco tempo, por isso o seu repertório é quase todo tradicional, com poucas composições modernas escritas para ela. Isso deve-se, em parte, devido ao ocaso do instrumento, cuja tradição fora mantida oralmente e estava já perder-se, à exemplo da säckpipa. No entanto, neste momento, há muitas gravações antigas e recolhas desse instrumento disponíveis pelo trabalho de muitos etnomusicólogos.


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